sexta-feira, 11 de novembro de 2016

PENSAR E PENSAR...

                                        
                           PENSAR E PENSAR...
                                                                                                                                
                Estava eu a pensar e pensar, matutando e quem sabe com alguma filosofia e pitadas de humor, talvez até de pilhéria a respeito da imprevisível proximidade daquela inexorável figura que nem as lâminas do tarô dizem o nome, mantendo apenas o número 13, com medo de ao nomeá-lo, despertar sua atenção fatídica.
                Ao me debruçar sobre esse assunto nada agradável a não ser  aos donos de casas funerárias que dela vivem, revivi estórias ouvidas das conversas das minhas tias que contavam, umas com sorrisos galhofeiros e outras consternadas, a preocupação de  querida amiga que era colega de uma delas na Escola e Academia de Belas Artes de São Paulo.
                Essa amiga era de talhe gracioso, delicada beleza, fino trato e família de escol, era muito vaidosa e, por ser loira e muito clara não andava sem uma sombrinha e as tinha bonitas e de várias cores, algumas pintadas outras com fru-fru ou rendinhas arrematando suas bordas e os cabos de marfim, madeiras entalhadas ou de prata lavradas e com incrustações de pedras semipreciosas, todas com a finalidade de protege-la do sol, evitando sardas que quebrariam a rósea e translucida cor de sua tez de delicado pêssego.
                Comentavam ainda as tias que a amiga nunca ia ao leito sem fazer completa maquiagem, caprichando no ruge e no batom com medo de, por fatalidade vir a morrer durante a noite e ser vista sem seus requintes de beleza e compostura!
                Essa lembrança me levou a outra não menos curiosa e mais trágica com certeza! A lembrança da moça que tendo frequentado alguns velórios e prestado sua solidariedade aos familiares e homenagens aos conhecidos que partiram e então percebeu que  muitas vezes, passada a noite de velório, pela manhã os falecidos apresentavam longos fios de barba espetados pelo queixo.
                Essa moça ficou com pavor de virar um defunto circense e de se transformar em grotesca mulher barbada!
                Não sei lhes dizer se deixou expressas suas últimas vontades e nem se ainda está viva, mas que andou cogitando de caixão lacrado, isso me lembro de ter ouvido falar.
                Que é feito dela não sei lhes dizer pois os caminhos da vida são misteriosos e se encarregam de nos apresentar bifurcações e assim perdi de vista essa assustada garota.
                Quanto a mim e meus devaneios, só posso dizer que espero vir a ser cremada um dia, no mais que isso fique para anos e anos a perder de vista, pois a despeito de minhas dores e limitações, gosto muito da vida e do viver!


                                                    Mariza C.C. Cezar
                                                                                                                                                

                                                                                   
                   

4 comentários:

Flávio Tallarico disse...

O imaginário pos morte cria fantasias as mais diversas. A minha esposa quer ser enrolada em um endredon para não passar frio e quer o caixão lacrado. Eu gostaria de ser enviado a um hospital de uma faculdade de medicina para servir de estudo aos futuros médicos. A sua personagem quer morrer maquiada e você quer ser cremada. A verdade verdadeira é que, depois de morto, somos incômodos e inúteis invólucros perecíveis, que precisam ser descartados com a maior urgência possível. Um morto é uma pedra no caminhos dos que permanecem vivos.Parabéns pela crônica.

Carlos Gama disse...

Mariza.
A "emissária do retorno" é quase sempre vista com desagrado, pois só percebemos o lado que está ao alcance dos nossos limites materiais.
Com o tempo, isso vai mudando e a convivência com a vida acaba nos mostrando que "ela" sempre vem na hora certa, nunca antes e nem depois.
Ainda hoje, também pensando "nela", eu escrevi este pensamento, com o título de Libertação: "A árvore da vida vai liberando os seus frutos, tão logo estejam no ponto".
Ainda que a realidade pareça imutável - e talvez seja - espero também que estejamos por aqui, o tempo suficiente para encetarmos muitas lutas, juntos, em defesa da vida no Planeta Terra.
Reitero o agradecimento ao apoio em defesa das árvores da Pinacoteca Benedito Calixto.

Suely Ribella disse...

Muito bom ler você, amiga Mariza...


Na morte, vivo pensando,
olhando de longe a vida,
assim vou me acostumando
com a hora da despedida.

Suely Ribella ©

Unknown disse...

Amiga, já que nascemos, começamos morrer! Morremos um pouco a cada momento, a cada dia! É bela a vida com todas suas circunstancias, alegres tristes, dores, fumos delirantes... Quanta nobreza, pobreza e demais estatus... Tenho, eu, 67 anos, não tenho mais a próstata, a vesícula biliar e, já não me recordo se me tiraram algo mais! Ah, sim, uso uma cadeira de rodas, pois, retiraram da minha medula, um líquido, sei lá qual! Isto ocorreu aos 37 anos; veja, esta aniversariando por estes dias, seus 30 anos... Sobrevivi! Em dias de hoje, não teria nem nascido, pois, quando minha mão engravidou de mim, com apenas uma trompa, seu mal estar, constante ..., fui então diagnosticado como tumor, rssss... Fui a forra, aos 22 anos impliquei o esculapio:- ''Fala contigo, um tumor...''. Hoje, penso viver até completar 116 aninhos, nem sei como chegar até eles, mas, de qualquer forma, jamais permitirei que me cremem, pois preso muito servir a natureza com parte daquilo que ela me deu.Também, já fiz meu cafô, até que ficou charmoso! Lá estão os avós paterno, meu pai e minha mãe e, também tem espaço para minha irmã mais velha. Por que queriria eu ser cremado? Jamé!