segunda-feira, 4 de abril de 2016

OBRA PRIMA

                                                                                                                                   




                 OBRA PRIMA







                Moreno, charmoso, bem posto, sempre de óculos escuros, saia para percorrer ruas, praças, o mercado municipal e até á beira do cais marcava presença com seu cão guia.
                Simpático sorria para os transeuntes ocasionais, cumprimentando ou trocando dois dedos de prosa com conhecidos ou com alguém novo que despertasse a atenção do seu nariz atilado.
                Sim, seu nariz e também sua sensação de espaço e por isso de formas. Ele “via” muito mais que os premiados com o sentido da visão.
                O tato e o paladar então, não apenas funcionavam, gritavam descrevendo detalhes de formas e sabores e as pessoas se lhes apresentavam em ricos detalhes de roupas ou desnudas. As primeiras lhes contavam o humor e preferências ou tendências e o nu, lhe revelava a alma e intensidade das paixões de cada um.
                Se suas manhãs eram de perambular ao saudável sol, suas tardes eram uma incógnita para os menos íntimos.
                A verdade é que esse período dedicava a duas paixões, música que o arrebatava a outras dimensões em que se soltava e extasiava, até que por ela era levado. Se dirigia ao atelier também preenchido pela música que o fazia mergulhar as mãos no barro e criar maravilhas que o cheiro trazido das ruas nas narinas atentas e o som predominante e envolvente o impulsionavam a do barro chão e artesanal, criar formas e expressões que levavam alma e despertariam vidas!
                Poderíamos parar por aqui pois narramos a rotina de vida e a criatividade de uma singular figura.
                Continuaremos mais um pouco, pois algo inédito aconteceu em uma noite, período até então não abordado, mas o nosso amigo, como todo bom artista era boêmio e suas noites ricas de vida.
                Vida e rotina a bem da verdade, pois acompanhado por seu cão guia, todas as noites após frugal jantar, se dirigia a um bar dançante e mais uma vez a música o conduzia a outro patamar a que se entregava prazerosamente, confraternizando com a alegria que grassava no ambiente sensual.
                Ouvia e cheirava os ares que por vezes eram tomados por formas esbeltas ou roliças, outras vezes apetitosas!
                Dançava. Gostava de dançar e a música lhe fazia sempre bem e gostava também de confraternizar e o fazia até que entendesse ser hora de descansar, para no próximo amanhecer  recomeçar suas andanças e rotina tão ricas e criativas.
                Uma noite, encontrou primeiro o cheiro que imediatamente lhe encaminhou á boca o gosto, e suas  mãos apressadas envolveram á eleita para a sensação da dança e aí, o encaixe dos corpos foi tão lindamente completo que o arfar e o fremir das bocas e corpos ao ritmo, não se sabe se da música ou dos corações uníssonos os tomavam por completo.
                Essa noite ele ousou sair da rotina pré-estabelecida, ficou mais e ficando, muito mais tempo ficou e acabou levando-a com ele.
                Naquela noite mesmo se desvendaram, se desnudaram, se conheceram de forma completa, bíblica e  pagã, se amaram intensa e lindamente!
                A manhã os encontrou no estúdio, ele a do barro perpetuar a fêmea, mergulhando suas mãos cheias do corpo dela no barro e  o modelava com a beleza dela, com o amor que ainda percorria seus jovens e saudáveis corpos, ela languida a posar entregue, totalmente entregue a ele e á arte que a perpetuava como o amor e a obra prima dele!                                                         
                                                                                                                                                         Mariza C.C. Cezar 
                                                                                                      



                                                                             
                                                                                                                             

Um comentário:

Flávio Tallarico disse...

Mais uma bela crônica demonstrando que a cegueira não impõe limite à vida, quando a determinação está acima do lamentar-se. Os outros sentidos permitem que a vida continue bela e encontre, com mais apuro, as verdadeiras paixões escondidas em um odor, nas palavras e no toque carinhoso das mãos femininas que o enlaçam e dedique a ele todo o seu amor.
Parabéns.