sábado, 20 de janeiro de 2018

ERA UMA VEZ...

                                                                 
                         ERA UMA VEZ..
                                                          
                                                               

                No tempo de capa e espada, em que príncipes e também aventureiros percorriam estradas e densas florestas montados em seus corcéis, é que vamos encontrar o garboso príncipe da nossa estória, montado em cavalo branco, saindo de densa mata, para uma clareira.
                Sedento dirigiu-se para uma pequenina casa em que se via flores à janela e esvoaçante cortina branca, enquanto da chaminé saia fumaça.
                Chegando mais perto deparou com lindo quadro emoldurado pelo batente da janela!
                Nada mais, nada menos do que a jovem mais bela que já vira, graciosa em alvas roupas íntimas ou seja, uma blusa branca de alças com passa-fita, espartilho encimando calças levemente bufantes, presa á altura da barriga da perna pela fita do arremate que franzia gracioso babado.
                Essa linda donzela surpreendida assim, na intimidade do seu lar, tinha os cabelos presos em longa trança   ao lado dela, à altura de sua orelha uma rosa vermelha.
                Encantado e sedento foi se aproximando e apeando, quando recebido por figura de velha mulher que ao varal, vislumbrara a dependurar roupas.
                Apresentando-se disse da sede e convidado a entrar, encontrou a sonhadora e desenvolta donzela que lhe prendera a atenção.
                Foi encanto e amor à primeira vista!
                Matou a sede e teve os desejos despertados e se quedou irremediavelmente apaixonado.
                Arrebatado de pronto, pediu à velha senhora a mão da moça a quem faria sua princesa.
                A velha senhora, avó da donzela a quem criara desde a mais tenra idade, vendo o brilho em seus olhos e a postura e decisão do jovem príncipe, submissa, aquiesceu ao pedido.
                Quebrados assim os protocolos pelo imperante desejo do príncipe, seguiu a jovem afoita, em sua garupa.
                Tão deslumbrada estava com o conto de fadas que estava vivendo, que nem notou a paisagem que percorriam até que chegaram a um castelo de pedras brutas em tons de cinza.
                No interior do castelo, foi apresentada à Rainha-Mãe e à não tão jovem princesa, irmã daquele que muito em breve viria a ser seu marido.
                Logo chamado o capelão e em tempo recorde, foi realizado  com pompas,o casamento real com os protocolos e aparatos da época.
                Assim, dentro das frias muralhas de pedra, passou a viver a agora jovem princesa.
                Decorridos poucos anos, distante da simplicidade e da bela e selvagem natureza que circundara seu lar de menina sonhadora, a princesa começou a se sentir desmotivada, cansada de viver praticamente trancada na alcova, em macio colchão de plumas em que o príncipe a jogava, no ardor de sua insaciável paixão e desejo.
                Entre quatro paredes, em colchão de plumas foram os dias decorrendo e essa era a sua ocupação e prisão, da qual raramente saia e quando o fazia, era dentro do frio castelo em que cruzava com as não menos frias, sogra e cunhada reais.
                No entanto um belo dia, passou pelo castelo uma caravana de saltimbancos que recrearam a corte com seus números de malabarismo, cantos e danças, e a jovem princesa que estava a perder o viço pela rotina, se encantou e o brilho voltou a seus olhos, como o doce sorriso aos lábios, pois reencontrara a alegria e a vida naquelas pessoas livres.
                A eles, decidida e sorrateira se juntou quando partiram. Fugida deixou a Inglaterra com a caravana e com eles atravessou o mar onde é hoje o Canal da Mancha e foram parar em Rouen, porto fluvial.
                Aí se deixou ficar. Vamos encontrar a nossa jovem com uma branca blusa franzida no decote e ombros, rodada saia colorida com cintura alta apertando a  já fina cintura e um engomado aventalzinho branco, servindo em bandejas, rústicas canecas de cerveja em também rústica taverna de beira de cais de eclética freguesia, pois ali bebiam trabalhadores do porto, alguns burgueses e eventuais cavalheiros.
                Rápida, alegre, elegante, a formosa jovem atraia a freguesia e a todos atendia com presteza e solicitude. Com seu jeito e charme despertava olhares, mas sua postura afável mantinha os mais afoitos enquadrados e sem jeito.
                Sério e refinado fidalgo se enamorou e passou a ser assíduo à taverna até que a conquistou e pedindo as contas, com ele partiu deixando na taverna corações também partidos.
                Vamos encontrá-la em casa grande e assobradada em esquina de praça, calçada com pedras também brutas. Agradável residência circundada por gracioso jardim, grades e portão de ferro fundido como a balaustrada da sacada do quarto e que era arrematada por jardineira de preciosos cravos.
                Assim passou a viver a agora jovem senhora, e viveu seu conto de amor e encanto de amar, por algum tempo, descobrindo que o seu cavalheiro não era muito diferente do príncipe, pois era ciumento e também a prendia em casa, se bem que agradável, arejada, colorida pelas flores que atraiam pássaros canoros. Com o passar dos dias também lhe pareceu uma prisão.
                Nossa heroína amava a liberdade e não era arruaça que procurava, apenas alegria e liberdade de ser e viver.
                Fugiu novamente! Vamos reencontrá-la servindo na mesma taverna!
                Um dia reapareceu o fidalgo e veio decidido a arrancá-la dali e, quando percebeu serem vãs suas palavras e argumentos, tresloucado e desvairado, desembainhou a espada e incontinente a nossa jovem foi ao chão! Da sua blusa branca, sobressaia uma mancha vermelha de sangue que crescia em formato de coração!
                Seu último olhar foi da espada à mão que a empunhava e ela levou nos olhos, a figura do seu agressor!


                                                                 Mariza C.C. Cezar
                                                                                                          
                                                            

                                                         

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

REVOLUCIONÁRIO DE OUTROS TEMPOS

                                                                     

                 REVOLUCIONÁRIO DE OUTROS TEMPOS.
                                                           
                                                                         
                Figura de homem velho e algo alquebrado. Mais velho do que na realidade seria seu tempo cronológico de vida.
                Filho mais velho de grande prole, como era comum à época de fim de início de época e de fim e início dos séculos dezenove e vinte, ainda mais em se tratando de família às antigas.
                Estudara apenas o necessário para o meio rural dos cafeicultores, não era muito dado às letras, cuidava mais dos afazeres da cafeicultura, mas não era de todo iletrado, alguns assuntos o prendiam vez por outra a ocasionais leituras, nunca temas poéticos ou literários, assuntos mais práticos que dissessem respeito às coisas da terra, suas economias e mãos de obra.
                Contam que certa vez, o pai que necessitara viajar para cuidar e supervisionar a colheita da safra de suas muitas fazendas de café, por ser o filho mais velho, se bem que ainda um rapazinho, o deixara à testa da casa sede, residência da família e da administração dos trabalhos e colheita dos seus cafezais.
                Jovem e imbuído de consciência social despertada pelas leituras que o prendiam nas horas de ócio, que não eram poucas, e ainda do convívio com os trabalhadores rurais nas terras da família, aproveitando a ausência do pai, resolveu reunir os colonos em frente à tuia e subindo em palanque improvisado com caixotes disponíveis,  passou a discursar tentando abrir os olhos  dos trabalhadores das terras, para que não se deixassem explorar.
                Inflamado pela própria eloquência, passou a lhes enumerar os direitos comumente olvidados pelos senhores e pela mão de obra que no mais das vezes os desconhecia.
                Foi no auge de tamanha e inflamada eloquência que o flagrou o pai voltando antes do previsto da viagem empreendida.
                Caiu no descrédito paterno o jovem revolucionário a quem vim a conhecer muitos anos depois, já de aparência alquebrada e de precoce velho, reduzido a pobre figura de pobre bolso e de triste vida, como sua prole nada pequena já que essa herança genética foi a única que herdou depois do malfadado arroubo pelas causas sociopolíticas.


                                                                           Mariza C.C. Cezar
                                                                                                                                                                       
     

domingo, 12 de novembro de 2017

ESTÓRIA DO SENHOR GAVIÃO



                           Hoje lhes apresento  a releitura de poesia postada nos primórdios deste Blog, agora como um pequeno conto:
                                                                             
                                                                                   

                                           ESTÓRIA DO SENHOR GAVIÃO
                                                       

                Houve um tempo que de tanto ouvir algumas histórias e outras estórias e “causos” familiares,  sonhava dormindo ou acordada, com o que ouvia das tias e tios, e me encantava e sonhava revivendo cada caso, cada personagem dos muitos referidos nas memórias familiares.
                Entre as figuras lembradas, uma das que mais me apaixonou foi a de um bisavô e até gostaria de ter como sobrenome um dos seus, aquele que mais me empolgava e despertava minha imaginação e admiração.
                Foi meu bisavô materno, pai de minha avó a mãe de minha mãe.
                Era homem afeito às ervas, caboclo de outras eras, homem forte, homem bom!
                Esse Senhor Gavião era senhor de suas terras, de cultivo, pasto e matagal e também poder-se-ia dizer que era entendido em botânica, química e medicina. Com amor, ele cultivada heras, plantas as mais diversas que misturava e administrava aos doentes seus, e isso o fazia com amor e dom dado por Deus, tratava-os com o que hoje chamamos de fito terapia e antigamente simplesmente de mezinhas, os chás,xaropes, unguentos, compressas e cataplasmas de ervas e heras.
                Suas curas correram léguas, de sua ciência foi o povo, aos poucos tomando consciência e as tropas, em cavalos burros ou éguas, do mais longínquo sertão, num crescendo, começaram a chegar.
                  Os homens pedindo a rogar ao senhor daquelas terras, a graça de a seus doentes curar, e ele, homem de tantos afazeres, senhor de terras e dos seus, não pôde ou não soube, por seus princípios cristãos, fugir ou negar ajuda a seus irmãos.
                Em amor e caridade, aquele Senhor Gavião, homem direito e às antigas, crente por formação, passou às gentes a ajudar, aos doentes curar com amor e dedicação,” sem hum mil réis” cobrar, em gênero ou espécie, pois o que fazia, fazia como uma prece de amor e gratidão!
                Gratidão ele tinha à mãe natureza e àquela beleza de dom que Deus lhe deu!
                   Me orgulho desse meu ancestral!
                Sinto carinho por ele e sua história de homem sábio, probo e bom.
                Que Deus o tenha, Senhor João Crisóstomo Pires Gavião!
                Com vocês deixo agora sua história, que tanto minhas fantasias povoou!
                                                              
                                                               Mariza C.C. Cezar
                                                         
                                                                                     
                                                                             

domingo, 15 de outubro de 2017

ELOQUÊNCIA...

                                                                     






                                             
                                                                     

                               ELOQUÊNCIA... 
                                                                     

                        O que será mais eloquente, a voz, o tom, o clamor, o burburinho, o sussurro ou o silêncio já que falamos de sons e não de posturas ou gestuais?
                        Dias destes li um texto em que uma sobrinha dizia ser no silêncio do mar que encontrava a Voz de Deus e logo abaixo havia uma observação minha dizendo não entender bem assim, pois para mim, o mar não tem nada de silencioso, mesmo quando na calmaria.
                        Mais eu dizia vez que no meu entender e sentir, a voz do silêncio é a Voz de Deus que ecoa dentro de nós.
                        Não vejo o mar em silêncio, para mim ele canta, também grunhe, ruge, estoura, extravaza em seus altos e baixos, toda a força do movimento ou da calmaria, em sons característicos e apropriados a cada momento, mesmo sussurros, suspiros, ais ou lamentos.
                        Em suas vozes ouvimos a Mãe Natureza, Netuno e sua corte que é rica e variada ouvimos também as vozes de outras plagas contando e cantando estórias daqui e de além-mar, seja em gemidos, gritos e vozes do além dos muitos e diferentes fantasmas que habitam suas profundezas, como chegam à suas praias ou rebentações, nos costões, rochas e quebra-mar!
                        Quão belo e eloquente é o mar com seus sons e ruídos, marolas, balanços  e gigantescas ondas e seus nuances variáveis do verde ao azul, chegando por vezes ao cinza esse “baita tancão besta”como exclamou meu avô menino, na primeira vez em que veio a Santos e descortinou essa imensidão que é o nosso vasto mar que desperta amor e respeito, embelezando a vista e banhando a orla, seus residentes  e turistas, inspirando poetas e músicos, alimenta e sustenta  pescadores e caiçaras como mantém, impérios capitalistas de pescados como a industria sem chaminés que também trás reconhecimento e divisas.
                        Pelas rotas marítimas se conquistou o mundo, se desbravaram continentes, navegaram e traficaram reinos, comerciantes, piratas e negreiros, turistas, estudiosos da fauna e flora marinha e também traficaram tesouros e divisas, não esquecendo as políticas que pulularam com usos e costumes ou mesmo roupagens épicas no decorrer dos tempos.
                        Esse mar de comerciantes, desbravadores e poetas, demarcava distâncias, diferentes culturas, etnias, civilizações, a força e a importância do mar que se mantém todas essas diferenças também proporciona o intercâmbio, a mistura, confraternização e miscigenação de povos e almas, de credos e raças, de usos e costumes, de bens e afetos.
                        No entanto o mar que ouço conta muito mais, me conta o segredo da vida, suas origens e ainda as cósmicas, pois a água é condutora de eletricidade e no caso do mar, pensemos em energias cósmicas e memórias ancestrais, pois ao que me consta é o útero do mundo, pelo menos do nosso planeta.


                                                               Mariza  C.C. Cezar

                                                                                                                                                     
                                                                                                                                                           


domingo, 17 de setembro de 2017

ARIDEZ









                 
                                ARIDEZ







                Aridez intelectual, criativa ou produtiva é algo estarrecedor, nos faz sentir estéril, seca, oca mesmo que o interior esteja efervescente, com angustias oriundas de consciência excessivamente escrupulosa.!
                Essa danada categoria de consciência é no mínimo incomoda, quando não chega a congelar, estende seus tentáculos por todos os órgãos do nosso corpo e fimbrias do nosso ser e coração.
                Não me olhem de esguelha e não me acusem, pois em sã consciência sei que não cometi crime e menos ainda atropelei ninguém, apenas premida pelas circunstâncias, em determinado momento fui evasiva e isso foi o bastante para que a danada da consciência tenha ficado a me atormentar, ocupando todos os espaços e sufocando a liberdade de ser e de me estender pelo mundo da fantasia, sequer da poesia.
                A realidade por vezes é crua, dura e vivemos em mundo absurdamente capitalista regido por inescrupulosos, e  por vezes encontramos circunstâncias em que nos sentimos acuados e impotentes e isso,  afronta e massacra, nos reduzindo a suprassumo de pó de nada e nos induz a crianças assustadas fazendo-nos, reagir como tal.
                Não me justifico e nem se trata de autodefesa, apenas tentativa de pegar essa criança no colo, acalmá-la e fazê-la reviver.
                Tão bom o viver e o sonhar!
                Tão gostoso confraternizar com outros iguais ou mesmo com os desiguais e ainda com personagens frutos da fantasia ou mesmo os reais enfocados e apresentados com as roupagens e adereços da liberdade poética dos nossos devaneios ou criatividade!
                Procurarei saber se já encontraram a mensuração e tratamento para a consciência escrupulosa, vez que se fala tanto em inteligência emocional, por certo já se poderá analisar e tratar as diferentes categorias de consciência que carregamos e que em qualquer oportunidade pula do baú do inconsciente para perturbar o cotidiano.

                                                                   Mariza C.C. Cezar



                                                                       
                                                                


                

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

PERPLEXIDADE





                            PERPLEXIDADE

                                                 
                                                         

                Alguém já terá sentido a perplexidade ante o vazio?
                Não me refiro ao vazio do açucareiro ou do pote de feijão ou de arroz nem mesmo ao do sal, o que poderia ser um inconveniente passageiro e resolvível.
                Também não me refiro aos ditos vazios do coração flagelado por dor de saudade ante a constatação do fim, por vezes temporário, mas com sabor de nunca mais.
                Falo do vazio, do oco, do abstrato, do nada absoluto recortado na paisagem, num trecho de rua, a falta do concreto desaparecido. Falo do impacto do oco visualizado e sentido na atmosfera circundante, aquele que num átimo de segundos nos atinge quando constatamos a ausência do todo, de algo certo, real, concreto.
                O impacto é tão grande que nos tira o chão, nos rouba pedaços de vida e nos faz estagnar como se aquele vazio nos atingisse e ameaçasse e nos sugasse também para aquele buraco no tempo, como se apenas um passo nos separasse do nada absoluto.
                Foi justamente assim que me senti por duas vezes.
                Na primeira, foi em uma das muitas noites em que pegava meu carrinho para matar a saudade do ninho, namorar a casa em que cresci e em certa noite estrelada, agradável e de calorento verão, depois de cumpridas as muitas obrigações diárias de trabalho, domésticas e familiares, me dirigi à rua Piauí, no bairro da Pompéia, a procura do lar e em seu lugar encontrei o vazio absoluto, um nada, misto de finitude, um portal ou vácuo estarrecedor pronto para sugar, para o não ser.
                Em choque e algo estupefata, retornei à nova residência e até hoje revivo aquela cena  enquanto me comprime o peito, e rouba o chão, as raízes.
                Podemos mudar de residências, viajar, correr mundo, mas o berço, o ninho, o lar, permanece como porto seguro, como aconchego e certeza inquestionável.
                Uma segunda vez, poucos anos depois, me deparei com o vazio novamente! Meu carrinho, um Gol tão em moda à época, fruto do meu trabalho e companheiro prestativo e solidário de todas as horas na vida corrida, agitada, sobrecarregada e ativa que levava entre as obrigações domésticas e cuidados com a minha querida mãe que ficara cega em razão de um AVC e minha tia-mãe e madrinha que moravam em outro bairro, e isso fazia antes de ir para o trabalho e na volta dele, aferindo as pressões arteriais das duas, os respectivos remédios, as compras e refeições.
                Tudo certo me despedia delas com um beijo para ir à minha casa preparar o jantar para o marido que chegaria do escritório, enfim, corria e me desdobrava.
                Meu Gol companheiro, à porta sempre à minha espera, mas  naquela noite me deparei com o vazio absoluto, impactante que absurdamente dava a sensação de recorte absoluto no vazio da paisagem local.
                Roubaram meu carrinho e com tudo que havia dentro.
                Não importa se fui à Polícia fazer o B.O. e menos ainda se passei boa parte da noite  na garupa da moto do marido percorrendo os mais diversos bairros e becos da cidade e adjacências, à procura do meu carro, menos ainda o telefone que nos acordou altas horas da madrugada, noticiando que a polícia o havia encontrado, depenado mas disponível. O impacto do vazio já ficara gravado na memória e no coração.
                Esses foram dois momentos distantes entre si, no tempo e no espaço, mas ambos me afrontaram com o terrível vazio, do recorte absoluto na tela ou enredo da vida, ambos me mostraram num repente, o vazio repleto de nada, absolutamente nada que ecoa em mim e que assim ficará, acredito, para todo  o sempre.

                                                                    Mariza C.C. Cezar 



terça-feira, 8 de agosto de 2017

ROSINHA, A BREJEIRA

                                                                                                                                                                   

                                                           ROSINHA, A BREJEIRA
                                          ( Releitura da minha Poesia” Menina de Roça”)

                                                                                 


                        Gostaria de dizer a vocês da graça e boniteza de Rosinha a menina que chamou minha atenção durante as minhas férias de verão, passada no campo.            Vou tentar fazê-lo do jeitinho que ela me prendeu e inspirou com aquele jeito brejeiro de menina de roça.
                        E ela era uma menina de roça, uma daquelas moças donzelas de arraial e costumava amarar os cabelos com laços de fita para ficar bonita e toda catita se enfeitar.
                        No peito pequeno e mimoso, fremente, por sobre o vestido de chita, uma flor colocava suspirando toda de anseio, com muito chiste e momice e na pracinha de amarrar égua, n’um domingo, dia de festa, deitava os olhos como a buscar, sonhos ou algum caboclo que a fazia suspirar toda de anseio e que fazia seus olhos tremelicar enquanto repuxava o cabelo, na boca mantinha um sorriso de quem sem jeito está.
                        E toda engomada, bonita e catita a moça donzela o que queria era o seu amor provocar, tudo fazendo como quem nada queria e sem jeito estivesse.
                        Enquanto a observava, eu aproveitava para beber água na bica, água fresquinha de dar gosto! Deitava os olhos pelo roçado e sentia o cheiro de mato, coisas simples, coisas boas como o povo daquelas bandas.
                        Como era bom escutar o gorjeio das aves de manhãzinha e no cair do sol. Saltitar com os grilos e voltear com as borboletas que pousavam de flor em flor!
                        Enquanto isso fazia, observava e pensava em Rosinha que namorava de “relanceio”, suspirava toda de anseio, pelo seu bem encontrar e com ele “trupicá”  como quem nada quer e em seus braços se enroscar como gata manhosa que não sabe de onde veio aquela pedra tinhosa que bem no meio do caminho, seu pezinho descalço cutucou!
                        A moça donzela, fazendo-se de desprevenida, assustada e ferida, foi cair em braços fortes daquele mesmo caboclo para o qual toda se enfeitou!
                        Rosinha bonita de dar gosto e era matreira a dita mocinha brejeira, sabida em sua ingenuidade de menina de roça, uma graça na verdade!
                        Rosinha a doce caipirinha, nem soube que me prendeu e perdeu de amores e encantos, pois tão ocupada estava na conquista do referido caboclo e nos sonhos e suspiros que ele lhe arrancava, que não teve tempo e nem olhos para notar a conquista que fizera naquelas férias de verão.
                        Que terá sido feito dela? Terá se casado com aquele mesmo caboclo? Terá uma penca de filhos? Estará ainda brejeira e bonita ou com a lida séria da vida, terá perdido o viço, aqueles frescor e brejeirice, castigada pela realidade e crueza da roça.
                        Assim ficou na história como uma interrogação e como um encanto perdido, uma doce lembrança das férias de verão e será uma bonita estória a ser contada num futuro distante para as crianças que quem sabe, um dia terei?

                                                                                                            Mariza C.C. Cezar